A história, como investigação do viver do homem no tempo, tem como matéria prima a memória, que se efetiva no espaço. Este, recortado pelo homem para habitar o mundo, configura o lugar. Temos a memória do lugar como a memória do homem investigada a partir desse espaço por ele significado, memória que o homem inscreveu ao transformar o espaço para o seu viver. A análise do lugar permite ver os traços do homem, que condiciona o espaço e é condicionado por ele, no ato de fazê-lo. É preciso, então, entender o homem de que o lugar nos diz. Contar a história de um lugar significa investigar o humano que o constituiu, compreender suas motivações. É dessa forma que contar a história do bairro da Levada, em Maceió, capital do estado de Alagoas, significa dizer de um homem anfíbio e da espacialidade forjada por ele, no seio das águas alagoanas. Espacialidade pouco estudada pela tradição historiográfica de Alagoas, evidenciando uma escritura desconexa da história local, na qual as falas sobre a Levada se mostram quase inexistentes. Buscou-se, então, encontrar as razões para o estabelecimento, em solo alagoano, de um terceiro polo de colonização situado na região das lagoas Manguaba e Mundaú, dando origem às duas capitais que Alagoas já teve, bem como compreender a formação de Maceió como fruto tardio desse povoamento, situando a Levada como a ocupação da baixada lagunar desta capital – ocupação que representa a conquista do mangue em prol de um fazer cidade. A Levada surge como margem urbana, a borda de um centro urbanizado, a partir de um porto lacustre estabelecido em função das rotas lagunares que levam a Maceió. É a existência de um canal, por onde se leva pessoas e mercadorias, uma “levada”, que dá nome ao lugar. A partir dessa rota de abastecimento da cidade, serão ocupados os terrenos entre o canal e o centro urbano, com comércio e moradia. O canal se estabelecerá como limite da área urbana e seu progressivo aterro é que permitirá à cidade avançar pela margem, firmando o lugar como o terceiro bairro da capital. A ocupação estabelecida em terreno alagadiço se dará inicialmente pelas pessoas pobres, de modo que a Levada evidencia uma cidade feita pela pobreza. Porém, as áreas aterradas próximas ao núcleo central serão ocupadas por uma classe mais abastada, dando início à ocupação ambígua que caracterizará o bairro, ora de privilégio, ora de exclusão. Os fluxos lagunares levarão ao estabelecimento de feira e mercado, instituindo nessa área estigmatizada a convivência de diversas classes sociais: ricos, pobres, pescadores, ambulantes, trabalhadores braçais, escravos, negros etc., cuja diversidade irá se traduzir na animação que a configura como palco de diversos festejos na capital, geralmente protagonizados pela população negra e mestiça aí instituída. Tais trocas entre os diferentes mundos serão entremeadas por conflitos, que se intensificam no aspecto religioso, com embates entre a religião predominante – a igreja católica – e religiões de menor destaque – a igreja batista e os terreiros de xangô, denominação dada ao culto de matriz africana. O episódio mais significativo, nesse sentido, será o evento conhecido como Quebra de 1912, um dos mais importantes em Alagoas e no Brasil acerca da perseguição de terreiros. O uso da feira e do mercado, reforçado pela implantação de equipamentos ao longo de décadas, também induzirão a urbanização e caracterizarão a Levada como lugar de abastecimento de Maceió. Mas a exacerbação do comércio e a perda de atratividade do centro da cidade levará à progressiva expulsão das residências para pontos mais afastados, até que em 2006 a saída da CEASA/AL representará o ponto alto de uma crise de vitalidade no bairro. Encarada como uma oportunidade, esse acontecimento pode levar ao fortalecimento da potência que as trocas comerciais representam na Levada desde seu estabelecimento. A presença das pessoas que vão às compras, ao mercado ou que passam em direção ao Centro permanece como o maior trunfo do bairro, o que torna o lugar conhecido por toda a cidade, reinvestido de sentido no cotidiano de moradores e visitantes, entrelaçando memórias e usos atuais. Sentido que não se perde e que é preciso compreender e, em seu valor para a vida das pessoas, fortalecer, potencializar e traduzir.